O esporte universitário mostra sua força e fraqueza
Mobilização de milhares de estudantes e falta de incentivo e de uma politica bem estruturada marcam os torneios e os eventos esportivos.

Passa ano, entra ano, e a coisa continua a mesma. Como dois dentes de engrenagem que não se combinam, assim se relacionam o potencial do esporte universitário e a sua expressão política e organizativa. Mobilização
e participação esportiva não faltam. Por exemplo, basta ter participado do último Interunesp, realizado na cidade de Rio Claro, interior do Estado de São Paulo, no final do ano passado, para perceber as grandes possibilidades de desenvolvimento. Mais de 15 mil participantes, representando todas as unidades da Universidade Estadual Paulista,
disputaram de maneira acirrada os jogos. Foram 4 dias de intensa disputa nas modalidades de Futebol de Campo e de Salão, Handebol, Vôlei de Quadra e de Areia, Tênis de Campo e de Mesa, Atletismo, Judô, Natação e Truco. Além disso, não faltou uma programação cultural com festas e um memorável desafio de baterias, que contou com a participação de todos os
estudantes envolvidos no evento – atletas e torcedores. Se é assim, se o esporte universitário atrai tantas pessoas, por que ele é tão pouco valorizado? Por que não há uma política universitária adequada ao desenvolvimento esportivo desse setor tão importante da população?
Em um primeiro momento, o leitor pode achar que o que aconteceu em Rio Claro tenha sido uma exceção. Não, não foi. Também no final do ano passado, em outra cidade do interior de São Paulo, Itapeva, aconteceu o 8o BIFE, competição idealizada por alunos da USP, que tem como propósito a integração dos participantes, independentemente do desempenho técnico das equipes. O BIFE é considerado hoje como uma espécie de segunda divisão do Interusp. Mais de mil estudantes (atletas) participaram desse evento. Mais de mil pessoas participaram da “segunda divisão” do Interusp. O que demonstra a força de atração do esporte universitário. Os exemplos não param por aí. A participação nos Primeiros Jogos Universitários Paulistanos, lançados em 2008, também foi massiva. O JUP, que foi idealizado pela Secretaria Municipal de Esportes e organizado pela Associação Brasileira de Esporte Educacional (Abrade), e que foi criado para reerguer o esporte universitário, contou com a participação de aproximadamente 5 mil universitários-atletas. Tal iniciativa foi muito bem-recebida pelos estudantes.
“Achei a iniciativa importante, porque durante muito tempo o esporte universitário foi deixado de lado. Os Jogos foram muito disputados. Predominou o equilíbrio técnico e as disputas foram acirradas. Daqui para frente, a tendência é que as novas versões do JUP sejam ainda melhores”,
afirmou Alexander, técnico da Atlética de Comunicação e Artes do Mackenzie.
A professora Adriana Ventura, da Escola de Educação Física da USP, técnica do time campeão da modalidade handebol feminino desse torneio, também
enalteceu o 1º JUP: “Achei uma competição legal, com várias equipes da USP e de outras universidades. Isso é muito importante, porque houve troca de experiências entre culturas esportivas diferentes”.
Além da participação massiva de estudantes nos jogos e nas atividades esportivas, o que chama a atenção é a diversidade.
Os eventos não se restringem aos esportes brasileiros tradicionais. Por exemplo, apesar das dificuldades de apoio, o rugby é um esporte que tem crescido no meio estudantil. O número de adeptos a essa modalidade
aumenta de ano para ano. Até mesmo corrida de carrinho de rolemã tem sua tradição no meio universitário. Todo semestre, estudantes da Escola
Politécnica da USP aguardam com ansiedade a realização do GP Poli-NSK Carrinhos de Rolimã. Esse evento é realizado na rua Matão, famosa ladeira da cidade universitária da USP. Alguns carrinhos chegam a atingir a velocidade de 70km/hora. No 45o GP-2008, participaram 130 competidores.

O QUE FALTA PARA DECOLAR?
O que falta para que o esporte universitário brasileiro se desenvolva e desempenhe um papel central na formação educacional, esportiva competitiva do país? Em primeiro lugar, um projeto político que inclua todos os níveis de ensino e de prática esportiva. Isso significa estabelecer um programa esportivo de base e de competição para o conjunto dos estudantes. Tal programa deve contemplar níveis diferentes, mas que estejam harmonicamente relacionados. De tal maneira que essa harmonia possa se expressar no desenvolvimento de ações esportivas educacionais
sistemáticas distribuídas em todo o país, na elaboração de um calendário de competições adequadamente, além de considerar a necessidade de uma relação organizacional entre escolas, universidades e clubes, entre esporte de entretenimento e de competição.
Hoje as iniciativas de aficionados,apesar de serem resultados de muita abnegação, de gente que ama o esporte, perdem-se no isolamento, na falta de estrutura e na ausência de apoio. Nesse momento, por causa de todos os obstáculos que têm de enfrentar, muitos estudantes estão deixando de praticar uma das maiores aventuras criadas pelo homem, seja em que modalidade for. Ao mesmo tempo, muitos atletas de ponta deixarão de se formar, por falta de incentivo.
O consolo para essa situação está no fato de que muitos estudantes não desistem; e os jogos universitários continuarão a atrair milhares de pessoas. Neste ano, os jogos das Olimpíadas Universitárias, do Interusp, da Intermed, do JUCA, do JUP, da LUPAA, da Liga Paulista, e todos os jogos organizados por outras ligas e por área de ensino (Interpsico, Engenharíadas, Jurídicos, Intecomp, Economíadas, Interfono, Intervet) continuarão a atrair milhares de estudantes, que persistentemente continuarão aguardando uma estrutura política e educacional adequada para o esporte brasileiro.

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